Lula é levado para depoimento, nega acusações e manifestantes protestam

Palavras de ex-presidente levam as investigações da Lava Jato para outra etapa. Na nova fase, condução coercitiva de Lula foi uma das mais esperadas

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Atualizado há 11 anos

São Paulo 04/04/2016- Ex-Presidente Lula, durante entrevista a imprensa na sede do PT Nacional. Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas
(Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas).

Qual o preço de um ombro amigo que foi negado na hora do chororô? Essa era a pergunta que não se calava desde quando o senador Delcídio do Amaral (PT-MS) teve uma gravação sua falando de como atrapalhar as investigações da Lava Jato. Ele foi preso, a mulher Maika pediu para os companheiros de estrela e estrada ajuda – quase suplicou – mas Delcídio ficou, saiu em fevereiro com a vontade de encarar o segundo round. O “troco”: de um coração traído.

A revista IstoÉ colocou mais lenha na fogueira quando apontou que Delcidio teria aceitado a tal delação premiada – juridiquês que parece estar entrando no gosto do público de quando as verdades aparecem. Justamente a palavra grega dada a 24ª fase da Operação Lava Jato, a Aletheia. A expressa significa “busca pela verdade” o que mostra uma brecha nas decisões que colocam o juiz Sérgio Moro no meio de uma luta livre. De um lado o grupo do “não vai ter golpe” pró-Lula e Dilma, de outro os anti-lulismo, petismo e todo o populismo e mar de corrupção que veio com o Partido dos Trabalhadores. Ainda não haviam conexões nem de um nem de outro em nenhuma das dezenas de delações realizadas nas fases anteriores. As especulações cresciam ao redor, mas nada contundente, até a chegada do companheiro abandonado e de um juiz intrigado com uma cadeia de corrupção, muito bem institucionalizada, que ainda tem a lacuna dos “chefões”.

A reportagem especial feita pela jornalista Débora Bergamasco para a IstoÉ foi muito questionada, apontada como tendenciosa, mas o que não se pode negar que, a julgar pelas reações no mundo político e econômico, é como se a confirmação de uma delação nem fosse necessária. O chamado “ato jornalístico” pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, não será discutido, pois não é jurídico. Mas, o próprio Delcídio do Amaral, ao se manifestar sobre a questão, não confirmou — mas também não negou — que tenha firmado um acordo de delação premiada. No qual fala sobre a existência do depoimento em que o ex-líder do Governo no Senado implica a presidenta Dilma Rousseff em tentativas de atrapalhar a Operação Lava Jato. Em nada há confirmação oficial.

A revista teve acesso às 400 páginas das “revelações de Delcídio” que formam o mais explosivo relato até agora revelado sobre o maior esquema de corrupção no Brasil – e outros escândalos que abalaram a República, como o mensalão. Num trecho a reportagem conta “com extraordinária riqueza de detalhes”, como o senador descreveu a ação decisiva da presidente Dilma Rousseff para manter na estatal os diretores comprometidos com o esquema do Petrolão e demonstrou que, do Palácio do Planalto, a presidente usou seu poder para evitar a punição de corruptos e corruptores, nomeando para o Superior Tribunal de Justiça (STJ) um ministro que se comprometeu a votar pela soltura de empreiteiros já denunciados pela Lava Jato.

GrXXficoXLulaX01O senador Delcídio também afirmou que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha pleno conhecimento do propinoduto instalado na Petrobras e agiu direta e pessoalmente para barrar as investigações – inclusive sendo o mandante do pagamento de dinheiro para tentar comprar o silêncio de testemunhas. O relato de Delcídio é devastador e complica de vez Dilma e Lula, pois trata-se de uma narrativa de quem não só testemunhou e esteve presente nas reuniões em que decisões nada republicanas foram tomadas, como participou ativamente de ilegalidades ali combinadas – a mando de Dilma e Lula, segundo ele.

Nos próximos dias, o ministro Teori Zavascki decidirá se homologa ou não a delação. O acordo só não foi sacramentado até agora por conta de uma cláusula de confidencialidade de seis meses exigida por Delcídio. Apesar de avalizada por procuradores da Lava Jato, a condição imposta pelo petista não foi aceita por Zavascki, que devolveu o processo à Procuradoria-Geral da República e concedeu um prazo até a próxima semana para exclusão da exigência. Para o senador, os seis meses eram o tempo necessário para ele conseguir escapar de um processo de cassação no Conselho de Ética do Senado. Agora, seus planos parecem comprometidos.”

No meio disso surge uma nova operação da Lava Jato. O procurador da República, Carlos Fernando Lima, que integra a equipe de investigação da Operação Lava Jato, disse ontem que há indícios de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu o pagamento de vantagens, seja em dinheiro, presentes ou benfeitorias em imóveis das maiores empreiteiras investigadas na operação policial. A Polícia Federal deflagrou na manhã de sexta-feira a 24ª fase da Lava Jato, com mandado de condução coercitiva para o ex-presidente Lula, que foi ouvido por agentes da PF no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

Segundo o procurador, Lula recebeu cerca de R$ 20 milhões em doações para o Instituto Lula e cerca de R$ 10 milhões em palestras de empresas que também financiaram benfeitorias de um sítio em Atibaia e de um triplex no Guarujá. “Doações podem ser realizadas por diversos motivos, mas precisamos ver se isso tem motivação com as obras fraudulentas feitas pela Petrobras”, disse Lima.

As empresas Camargo Corrêa, Odebrecht, UTC, OAS, Queiroz Galvão e Andrade Gutierrez, segundo o procurador, pagaram 60% de todas as doações para o Instituto Lula e 47% dos valores das palestras para Lula entre 2011 e 2014.

De acordo com o procurador, a Polícia Federal (PF) investiga se Lula era quem liderava esquema de desvio de dinheiro da Petrobras para financiamento político e enriquecimento pessoal. Nas fases anteriores da investigação, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e o ex-tesoureiro do PT João Vaccari, presos na Lava Jato, eram apontados pela polícia como os principais líderes do esquema de fraudes.

O Ministério Público e a Polícia Federal investigam ainda o pagamento de serviços, pelo Instituto Lula, que tem benefícios fiscais, à empresa G4, pertencente ao filho de Lula. De acordo com Lima, o instituto repassou mais de R$ 1 milhão para empresa por supostos serviços prestados. A polícia investiga se esses serviços foram realizados.

Há quem diga que há um golpe em curso. Que Lula foi sequestrado pela Polícia Federal a mando da República do Paraná. E que essa foi uma “ação orquestrada” para derrubar o governo, inviabilizar a candidatura do ex-presidente em 2018 e cassar o registro do PT. As verdades serão apresentadas, apenas, nos próximos capítulos dessa novela.

Condução coercitiva

GrXXficoXLulaX02O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi levado pela Polícia Federal por um mandato de condução coercitiva, quando a pessoa é levada para a delegacia a fim de prestar depoimento e depois é liberada. A medida foi a principal tomada durante a 24ª fase.

O objetivo é dar “continuidade às investigações de crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, entre outros praticados por diversas pessoas no contexto do esquema criminoso revelado e relacionado à Petrobras”, segundo a nota da PF.

Cerca de 200 policiais federais e 30 auditores da Receita Federal cumpriram 44 ordens judiciais, sendo 33 mandados de busca e apreensão e 11 mandados de condução coercitiva, entre elas a de Lula. As medidas foram cumpridas nos estados de São Paulo, do Rio de Janeiro e da Bahia. A operação também inclui buscas em Guarujá, Diadema, Santo André, Manduri e Atibaia.

A casa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em São Bernardo do Campo, em São Paulo, e o Instituto Lula também foram alvos da operação.

Manifestos

Antes mesmo de Lula ser levado para depoimento, por aqui, a Associação Empresarial de Porto União (ACIPU) já tinha orquestrado uma manifestação para o dia 13 deste mês. Os empresários irão levar às ruas questionamentos sobre o fechando de empresas e desemprego. Além de implicar esses fatos à crise provocada pela corrupção. Os manifestantes também irão levantar bandeiras sobre a diminuição das bolsas do FIES.

O manifesto começa a partir das 15 horas e segue até às 17 horas na Praça Hercílio Luz.

Repercussão internacional

A imprensa norte-americana repercutiu a nova fase da Operação Lava Jato e que resultou na condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As páginas dos jornais na internet destacaram que operação se deve a investigação de corrupção na Petrobras. O New York Times publica que ex-presidente está sendo interrogado pela polícia, que investiga “um esquema de corrupção colossal envolvendo a Petrobras, a empresa nacional de petróleo”. The Washington Post informa que as autoridades brasileiras estão interrogando o ex-presidente e fazendo buscas “em sua casa como parte do caso de corrupção que atinge a gigante do petróleo Petrobras”. O Los Angeles Times diz que a operação constitui “um dos desenvolvimentos mais dramáticos do caso de corrupção que atinge a gigante do petróleo Petrobras”.

Já o Miami Herald publica uma foto de Lula e destaca que a polícia fez buscas em endereços relacionados com o ex-presidente, incluindo o Instituto Lula, sua organização sem fins lucrativos. O Wall Street Journal informou, em sua edição online, que a condução coercitiva do ex-presidente Lula, para depoimento, “aprofunda uma crise política que ameaça engolir partidários e adversários do governo”. O jornal acrescenta que a investigação apura a suspeita de que o ex-presidente obteve benefícios relacionados com a reforma de apartamento tríplex e um sítio, no interior de São Paulo. Os benefícios teriam sido concedidos por construtoras investigadas pela Operação Lava Jato.

Na Argentina, o canal de televisão Todo Noticias acompanhou os acontecimentos no Brasil ao vivo e seus comentaristas falaram sobre a proposta do atual governo argentino de adotar no país a delação premiada (quando um investigado firma acordo para dar informações sobre um crime em troca de redução de pena) e como esse tipo de acordo poderia ajudar na investigação de escândalos de corrupção envolvendo governos anteriores.

Os jornais Clarín e La Nación – que têm correspondentes no Brasil – explicaram, aos leitores, o esquema de corrupção investigado na Petrobras e os motivos que levaram a Justiça a investigar Lula. O jornal Pagina 12 disse que a operação de hoje que levou o ex-presidente a depor “tem cheiro de perseguição”.

O canal de televisão Telesur deu como manchete o apoio das organizações sociais ao ex-presidente e ouviu especialistas que argumentaram que partidos de direita estariam se mobilizando para impedir que Lula se candidate à Presidência da República em 2018. O jornal chileno, El Mercurio, assim como o paraguaio ABC Color citaram declarações de integrantes de partidos da oposição no Brasil que dizem que este é “o princípio do fim de [Dilma] Rousseff”. O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, reagiu sobre a operação policial pela rede social Twitter: “Desse ataque miserável, você [Lula] saíra mais forte; Venezuela te abraça”, escreveu.

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