Campanha recente na internet tem intrigado muitos internautas. Fotos em preto e branco estão sendo publicadas acompanhadas da #desafioaceito. A campanha, apesar de não ser vinculada a nenhuma ONG ou instituição, serve para chamar a atenção para a conscientização do combate ao câncer.
Quem curte a foto em P&B de algum internauta recebe a mensagem “Oi, não sou adepta(o), mas essa foi por uma boa causa, então aí vai: tem que colocar na tua linha do tempo uma foto tua em preto & branco pela luta contra o câncer e escrever: #DesafioAceito. Manda essa mensagem para todos que curtirem tua foto.”
Ainda não se sabe de onde foi criada a campanha, mas se for pela boa causa, tem muita gente entrando na onda.
Outra notícia que tem norteado o tema nesta semana é uma nova opção no tratamento de câncer de mama. Pacientes com câncer de mama em fase inicial, do tipo específico HER2-positivo, com alto risco de recorrência, ganharam o aliado Perjeta® (Pertuzumabe) da Roche, empresa mundial líder em oncologia. O tratamento foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para uso antes da cirurgia, também conhecida como neoadjuvância – que é quando são administrados agentes terapêuticos antes do tratamento principal.
Esses nomes técnicos podem parecer grego para quem não entende do assunto. Pensando nisso, a reportagem de O Comércio conversou com o médico oncologista Charles Ronald Van Santen, que é especialista e atua no Vale do Iguaçu, para saber quais tipos de tratamentos de câncer que estão disponíveis hoje e quais deles são oferecidos no Vale do Iguaçu.
Conforme Charles o tratamento do câncer tem se tornado bastante individualizado. Existem protocolos padrão, mas com direcionamento de medicações de acordo com o perfil do doente e da doença. “Assim estamos gradativamente partindo para o tratamento individualizado do câncer, o que é bastante presente no tratamento do câncer de mama”, comenta o especialista.
Os tratamentos, de forma genérica, incluem: cirurgia, quimioterapia, radioterapia, imunoterapia, hormonioterapia e outros muitos procedimentos próprios de cada neoplasia. A maioria deles sãos oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Em geral as novas tecnologias e medicamentos, recém-lançadas, geralmente tem um custo alto e carecem de comprovação de um benefício que justifique o custeio da medicação. Esse benefício em geral é medido com o tempo livre de doença e sobrevida global. Ou seja, quanto tempo de vida o paciente ganha com aquele tratamento – considerando ainda efeitos colaterais e riscos deste tratamento – e a porcentagem de pacientes vivos ao final de 3, 5 ou 10 anos, por exemplo, comparando os que utilizaram tratamento padrão e os que utilizaram a nova tecnologia associada”, explica.
Esses são os parâmetros básicos, mas não únicos, a serem utilizados para autorizar ou não o uso de novas tecnologias ou medicações pelo SUS e até mesmo convênios, completa Van Santen.

Aqui no Vale, segundo o especialista, estão disponíveis cirurgias oncológicas e reabilitação cirúrgica, quimioterapia, hormonioterapia e imunoterapia. “Cirurgias oncológicas têm como particularidade abordagem dos tumores de uma forma radical o suficiente para proporcionar maior chance de cura, complementando o tratamento rádio ou quimioterápico prévio ou neoadjuvante, ou preparando o paciente para uma futura complementação com estes, quando não, tratamento exclusivo cirúrgico”, explica Van Santen.
Já a quimioterapia funciona através do “bloqueio” da divisão celular em alguma das várias etapas deste processo de multiplicação das células tumorais – ou não – daí surgindo os efeitos colaterais, visto atingir também células sadias do organismo. “Outras medicações são as chamadas “alvo específicas” ou agentes biológicos. Estas atingem um ponto específico, que é característico do tumor. Por exemplo o Trastuzumab (Herceptin®) que inclusive é autorizado pelo SUS, é utilizado em casos de câncer de mama HER2 positivos. Caso o câncer da pessoa expresse, possua um marcador mostrado em um exame chamado Imunohistoquimica, o HER2, ela pode usar a medicação com benefício em termos de cura ou resposta ao tratamento. Mas só nos casos que tem essa proteína, por isso alvo especifica, por isso tratamento individualizado. Depende das características de cada tumor. Nesse mesmo pensamento funciona esta droga Pertuzumab e outras novas drogas já em uso prático”, completa.
O tratamento é bastante individualizado e a possibilidade de cura depende principalmente do que os médicos chamam de “estadiamento da doença”. Ou seja, tamanho do tumor, comprometimento de linfonodos e presença de metástases à distância.
Causas e cuidados
O câncer é causado por fatores pessoais, hereditários e ambientais. Os pessoais não podem ser mudados, já os hereditários constituem cerca de 10% dos casos. Exemplo é a atriz Angelina Jolie, que “retirou” as mamas e ovários visto alteração genética familiar que possuía, com chance muito elevada de desenvolver câncer de mama ou ovário. “Com as cirurgias diminuiu a probabilidade desses. Causou a conscientização do público com o “efeito Jolie”. Muitas pessoas hoje procuram essa prevenção pelo ocorrido com ela. E os fatorem ambientais são os que mais podem ser “manipulados”, explica Van Santen.
Outros cuidados são os hábitos saudáveis – evitando álcool, cigarro, drogas, alimentação rica em frutas e verduras, diminuindo consumo de gorduras e açúcar, abolindo sedentarismo com a prática de atividade física pelo menos três vezes por semana.
Em certos pacientes há, sim, casos de reincidência do câncer, contudo se deve muito pelos cuidados posteriores e, também, a genética. “Vale lembrar que muitos que já trataram de câncer estão por aí levando uma vida ativa e plena, talvez com marcas, mas valorizando cada minuto de vida. Estes passam despercebidos muitas vezes, sem serem notados. Diferente de casos agressivos, com dor, alterações visíveis, jovens ou não, estes são mais noticiados e carregam a fama do câncer como ceifador de vidas, que muitas vezes realmente é, mas, a batalha tem sido fervorosa, novas medicações estão surgindo. A doença algumas vezes não é curada, mas cronificada, tornada crônica, possível de conviver com ela e oferecendo qualidade de vida mesmo com a doença”, fala.
Ainda há a melhora do padrão de vida das pessoas, em termos de alimentação e saneamento básico, por exemplo.
Em números
No Vale do Iguaçu, segundo o especialista, assim como em boa parte do Brasil, os casos de câncer de pele, mama e próstata são os mais comuns. Merece atenção na região, casos de câncer de pele, pelo tipo de colonização de pessoas predominantemente de pele clara, alerta o médico oncologista. Casos de câncer de estômago pelo consumo de embutidos e carne conservada em sal, e tumores de cavidade oral e garganta pelo cigarro e álcool, são também registrados por aqui. Estes, no entanto, com discreto aumento da incidência em relação a algumas outras regiões do País.
Contudo, de acordo com a Estimativa 2016: Incidência de Câncer no Brasil, serão registrados no País, ainda neste ano, 596 mil novos casos de câncer. Entre os homens, são esperados 295.200 novos casos, e entre as mulheres, 300.800.
Na Estimativa, o câncer de próstata aparece como mais comum na região Sul, com 13.590 novos casos. Seguido do câncer de traqueia, brônquio e pulmão; depois cólon e reto, além de câncer no estômago.
Depois do diagnóstico
Para Van Santen o “número mágico” de cinco anos é um parâmetro usado de acompanhamento, visto ser esse o período de maior chance de a doença retornar. “Na verdade a doença pode recidivar antes ou depois disto. O tratamento após a recidiva pode ser reabordagem cirúrgica, radioterapia ou quimioterapia, tudo de acordo com a situação. Eventualmente pode ser o mesmo medicamento, mas em geral muda-se o princípio de ação do medicamento no caso da quimioterapia ou hormonioterapia, por exemplo, agindo em outro “ponto fraco” da doença”, explica.