A paralisação das atividades da unidade da JBS/Seara em Itaiópolis completou cinco dias nesta segunda-feira, 10, gerando incertezas e aflição.
A paralisação aconteceu após o Ministério Público (MPSC) representar judicialmente contra a empresa e outros órgãos públicos devido à grave contaminação do rio São Lourenço, que cruza o município de Mafra e tem sido tomado por uma camada espessa de vegetação — o chamado “tapete verde” —, resultado da alta concentração de nutrientes e esgoto não tratado.
De acordo com o MPSC, quatro ações civis públicas com pedido de liminar foram ajuizadas contra a Celesc Geração S/A, o Serviço de Limpeza Urbana de Mafra (Seluma), a JBS/Seara Alimentos Ltda., o Município de Mafra, o Estado de Santa Catarina e o Instituto do Meio Ambiente (IMA). As ações têm como base um inquérito que identificou níveis alarmantes de coliformes termotolerantes e nutrientes acima do limite legal.
O objetivo do Ministério Público é interromper imediatamente as fontes poluidoras e responsabilizar civilmente os envolvidos pelos danos ambientais, sociais e coletivos.
AVIÁRIOS PARADOS
Um avicultor de Itaiópolis, que preferiu não ter o nome divulgado, relatou à reportagem como a paralisação da JBS tem afetado diretamente a rotina e a renda dos produtores locais. Segundo ele, a empresa interrompeu o abate na quinta-feira, 6, e desde então nenhum frango tem sido recebido pela unidade.
“O abate parou na quinta-feira, e desde então os caminhões não vêm buscar. Os frangos do nosso aviário já estão com 45 dias de idade, bem acima do peso ideal. Isso causa prejuízo direto, porque o custo do lote aumenta a cada dia parado”, explicou. O produtor detalha que o ideal seria manter um ciclo de seis lotes por ano, com períodos de “vazio sanitário” entre cada criação para limpeza e desinfecção dos aviários. Com a paralisação, o planejamento foi quebrado. “Agora tudo atrasa. A gente não consegue fazer o vazio sanitário nem alojar o próximo lote. Isso compromete o cronograma do ano inteiro e as parcelas que a gente tem pra pagar. É um efeito em cadeia.”
CUSTO DIÁRIO
O avicultor explica que, mesmo com o abate parado, os animais continuam exigindo ração, energia e manejo diário, o que faz os custos subirem rapidamente. “A empresa fornece ração, mas a despesa de energia e de mão de obra é nossa. A cada dia que passa o frango cresce mais, consome mais e gera mais gasto. Chega uma hora que o peso passa do ponto, e a mortalidade aumenta.”
De acordo com estimativas do produtor, cerca de 30 aviários integrados à unidade de Itaiópolis estão na mesma situação, cada um com capacidade média entre 30 e 40 mil aves. “Hoje, com o abate parado, a gente já tem de quatro a cinco galpões represados por dia. Se o abate não retomar logo, o número de aves fora do peso vai crescer exponencialmente.”
Ele acrescenta que parte dos frangos mais jovens está sendo redirecionada para outras unidades da JBS, como na Lapa (PR), mas o volume é pequeno, em torno de 110 mil frangos abatidos no dia. “O que dá pra mandar pra fora são os frangos menores. Os grandes ficam. E esses, com 60 dias, já começam a morrer por excesso de peso e calor, infarto pelo excesso de peso. Isso é prejuízo que o produtor não recupera. Para esse produtor o prejuízo fica entre R$ 800 e R$ 1 mil dia cada galpão”. Nesse caso, o prejuízo pode chegar a R$ 3 mil por dia, totalizando os três galpões.
800 MIL
Segundo cálculos feitos com base na capacidade média de abate da unidade, cerca de 180 mil frangos eram abatidos por dia antes da paralisação. Com o fechamento temporário, o número de aves acumuladas chega próximo dos 800 mil. Além dos frangos já criados, o produtor afirma que novos alojamentos foram cancelados. “A gente tinha entrada programada de pintinhos de um dia, e foi tudo cancelado. Isso trava a cadeia toda. Quem vive disso fica sem renda até regularizar.”
O produtor contou que os avicultores se reuniram com representantes da JBS na sexta-feira, 7, mas ainda não há previsão oficial de retorno. “Falaram que dependem do Ministério Público e do IMA. A expectativa é que retome o abate o quanto antes, porque o frango continua crescendo e o prejuízo aumenta a cada dia. Não é só a empresa que perde. Nós, produtores, estamos com os aviários cheios, sem espaço e sem conseguir iniciar novos lotes. A gente trabalha duro pra colocar alimento na mesa das pessoas, e agora está tudo parado.”
MUNICÍPIO
A Prefeitura de Itaiópolis informou, por meio da assessoria de imprensa, que não recebeu comunicação oficial dos órgãos fiscalizadores, mas que acompanha o caso com preocupação, devido aos impactos ambientais e também o reflexo dos impactos econômicos com uma empresa como a JBS parada a dias.
A reportagem tentou contato com a JBS/Seara, que não se pronunciou oficialmente até o fechamento desta matéria.
Fontes internas da empresa informaram, de forma extraoficial, que o abate deve seguir suspenso até esta terça-feira, 11, quando novas instruções serão repassadas após tratativas com o Ministério Público e o IMA. Apuramos ainda que uma reunião deveria ter acontecido na tarde de sta segunda, 10, com representantes da JBS, MPSC e IMA na tentativa de negociações, como possivelmente um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), porém até o momento nada foi confirmado.
A crise no rio São Lourenço, que começou como um problema ambiental, agora se transforma também em uma crise econômica e social. Centenas de famílias dependem diretamente da produção integrada com a JBS/Seara de Itaiópolis, e o prolongamento da paralisação ameaça a sustentabilidade de pequenos produtores, que já enfrentam altos custos de energia, ração e manutenção. E ainda tem os funcionários que temem a situação, todo o trabalho suspenso, os colaboradores estão em casa, sem exercer suas funções. Ainda, alguns colaboradores da empresa relataram a nossa equipe, o receio de voltar o abate reduzido, podendo a empresa demitir, ou dar férias coletivas para parte da equipe.