Sou Celíaca, o que fazer? “Qualquer migalha de glúten, passo mal”

Após descobrir a doença celíaca, Jordani Gelinski Borges virou o jogo; passou a comercializar produtos para pessoas que se encontram na mesma condição que ela

Jordani Gelinski Borges conta a sua história.

Desde a infância, tudo que ela ingeria lhe causava desconforto. Foi então que a vida social começou a ficar mais restrita. Sem um diagnóstico em mãos e sempre acompanhada dos pais, Jordani consultou com vários médicos. Tudo levava a crer que era uma gastrite nervosa. A menina com o sonho de desbravar o mundo não apresentava melhoras em seu quadro clínico. Porém, ela persistiu. Seu objetivo era um diagnóstico preciso sobre o que estava acontecendo com o seu corpo.

Os anos passaram. De Irineópolis, Jordani passou a morar em Porto União. Chegou a fase adulta, se casou e teve duas filhas. Apoiada pelos novos integrantes da família, juntamente do seu pai e da sua mãe, descobriram a doença celíaca em dezembro de 2016.

Com o resultado, Jordani não se entregou. Ela virou o jogo e hoje é proprietária de uma empresa que revende alimentos sem glúten. Cheia de vida e de palavras sábias, ela faz questão de ajudar àqueles que também se encontram na mesma condição que ela. Sua maior vitória foi ter descoberto a doença e buscado um tratamento. Agora, se dedica a apresentar produtos sem glúten para que os celíacos voltem a viver em grupo novamente.

Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS) cerca de 1% da população mundial é celíaca – sensível ao glúten. Segundo a Federação Nacional das Associações de Celíacos do Brasil (Fenacelbra), no Brasil não há um número concreto de pacientes – muitos sequer têm consciência de que portam a doença. As estimativas, porém, apontam que até dois milhões de brasileiros são celíacos.

Praticamente 90% dos alimentos que consumimos têm a presença da proteína. A ingestão em excesso desses produtos pode trazer alguns riscos. Segundo Jordani, é fundamental que o paciente procure um profissional da área para ajudar no diagnóstico.

“É muito importante que façam os exames corretos porque, você acha que é apenas intolerante, mas na verdade é celíaco”.

Preocupada com a farinha de trigo presente em massas, bolos e pães, contém glúten, uma proteína que pode trazer sérios problemas para quem tem a doença celíaca, Jordani, para a felicidade de quem se encaixa nesta descrição, admite que o mercado está em expansão e que existe variedade de produtos.
Prova disso foi que Jordani inaugurou neste ano o Empório Celíaco em Porto União, que é uma empresa com produtos alimentícios saudáveis e seguros para quem tem restrições alimentares.

“Temos muitas opções sem glúten, sem lactose, sem proteína do leite, sem ovo, sem soja, sem açúcar e vegano”.


Confira a entrevista na integra:

Jornal O Comércio (JOC): Quem é Jordani?
Jordani Gelinski Borges (JGB): Sou formada em Serviço Social com especialização em Gestão de Políticas, Projetos e Programas Sociais pela PUC-PR (mas nunca atuei como Assistente Social). Trabalhei por quase 16 anos em entidade filantrópica na parte administrativa, gestão e projetos. Em março de 2021 comecei a desenvolver o site www.emporioceliaco.com.br que era um sonho meu, poder ter mais opções sem glúten e poder ajudar outras pessoas que, assim como eu, têm restrições alimentares e dificuldade em encontrar uma variedade de produtos. Foi em maio de 2021 que decidi sair do meu emprego e me dedicar ao meu próprio negócio; além de passar mais tempo com as minhas filhas. Sou Celíaca e Intolerante a Lactose. Quando iniciei a divulgação do site muitas pessoas entraram em contato comigo falando da dificuldade em encontrar produtos para suas restrições na cidade e na região. Foi aí que eu e meu marido Flávio decidimos montar uma loja física que inaugurou no dia 07 de outubro deste ano.

JOC: O que é a doença celíaca?
JGB: É uma reação exagerada do sistema imunológico ao glúten, proteína encontrada em cereais como o trigo, o centeio, a cevada e o malte. De origem genética, pode causar diarreia, anemia, perda de peso, entre outros. De início, quando você descobre o diagnóstico, você fica muito perdido. Mas aí, você começa a assimilar que é somente uma restrição ao glúten; para mim não demorou muito tempo para eu aceitar essa condição, pois tem pessoas que não aceitam porque diminui a vida social. O glúten está em todo o alimento. Eu vivia passando mal, isso desde pequena. Descobrir o diagnóstico e não passar mal, não tem preço. Não sou especialista na área, mas pelo meu bem-estar e dos meus clientes busco informações sobre a doença que apresenta mais de 200 sintomas e que se confundem com outras doenças. A maioria dos celíacos são assintomáticos. No meu caso, os principiais sintomas foram a constipação intestinal (dificuldades para evacuar), fadiga, dores nas articulações, dores de cabeça, enxaqueca, alguns relatam depressão, ansiedade e também e brotoeja com coceiras causadas pela doença celíaca. Ainda, a anemia, entre outros.

JOC: No seu caso, quando os sintomas apareceram?
JGB: Segundo os meus pais, desde pequena já, mas nunca encontravam nada. Eu tinha dores no corpo e nas articulações e que foram aumentando. Fui atrás de um diagnóstico faz uns 15 anos, pois comecei a passar muito mal. É difícil para a família lidar com tudo isso, pois sempre querem agradar com alguma comida, mas quase tudo que eu comia eu passava mal. Nunca imaginaria que eu teria uma doença auto-imune. Fiquei muitos anos fazendo vários exames e sem fechar um diagnóstico. Cheguei a fazer três endoscopias (é um exame capaz de analisar a mucosa do esôfago, estômago e duodeno – primeira parte do intestino delgado) por ano. Até então disseram que se tratava de uma gastrite nervosa. Hoje eu aceito muito bem essa condição. É aprender a lidar com a situação e tornar a vida mais leve.

(Reprodução/Arquivo Pessoal)

JOC: O que significa  contaminação cruzada?
JGB: Ocorre quando dois alimentos diferentes entram em contato e o alimento seguro passa a conter uma pequena quantidade do alimento alergênico, tornando-se assim perigoso para o indivíduo com doença celíaca ou alergia, mesmo que essa quantidade seja pequena. O ideal é sempre ler os rótulos dos produtos ou ligar para o SAC [Serviço de Atendimento ao Consumidor] da empresa para obter as informações sobre o produto. Mas em razão da correria as pessoas não tem tempo para isso, por isso criamos uma loja física para ajudar as pessoas com produtos confiáveis. Sou assintomática e qualquer migalha de glúten, passo mal”.

JOC: A leitura dos rótulos dos produtos é parada obrigatória nos supermercados?
JGB: Ainda bem que a gente gosta de ir ao mercado porque demora (risos). Meu marido e filhas vão ao supermercado e verificam se os produtos tem glúten. Aqui em casa não entra glúten por receio de contaminação cruzada. Porém, meu marido e filhas necessitam de ingestão de glúten e saem uma ou duas vezes na semana para consumir outros alimentos. Se o meu marido tomar uma cerveja, por exemplo, é preciso escovar os dentes e aguardar por três horas para então me beijar. São pequenas partículas mas que eu posso me contaminar.

JOC: O que mudou após o diagnóstico?
JGB: A minha vida social é mais restrita. Mas sempre, em primeiro lugar, cuido da minha saúde, o apoio da família, do meu marido e das minhas filhas. O aconchego da família e amigos é muito importante, todos se preocupam com o que eu posso ou não comer. E assim, você não vai na casa das pessoas para comer, mas sim para um bom papo. Passei a valorizar muito outras coisas. Vale explicar que eu sou celíaca e não intolerante ao glúten, são termos diferentes. Também sou intolerante a lactose.

JOC: Outros membros da família têm a mesma condição que a sua?
JGB: A doença celíaca pode ser uma condição genética. Meu pai fez os exames e não apresentou a doença. Uma das minhas filhas tem predisposição à doença, mas que pode não se manifestar no futuro.


Serviço

Demais informações sobre o Empório Celíaco podem ser obtidas no site www.emporioceliaco.com.br ou no email jordani.emporioceliaco@gmail.com.

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