
A novidade tem apenas pouco mais de 60 dias, mas abre um leque imenso de possibilidades e soluções. Há dois meses, União da Vitória, através do Hospital São Camilo, está autorizada para transplantar osso, tecidos e músculo esqueléticos (ligamentos e tendões). A intervenção devolve mobilidade para quem, por acidente ou doença, por exemplo, perdeu ligamentos ou ossos. Antes, o procedimento só era feito em grandes centros e, não raro, testava literalmente a paciência do paciente.
Um alívio para o militar Paulo Humberto Freire, de 21 anos. Em 2014, ele rompeu os ligamentos do joelho esquerdo durante uma partida de futebol. Na ocasião, ele estava em uma viagem, na cidade de São Gabriel (RS). Fez a primeira cirurgia três meses após a contusão, na cidade de Três Corações (MG), onde morava. “Tive muita dor, tomei bastante remédio, as sessões de fisioterapia doíam muito”, conta.
Em agosto deste ano, Freire precisou de nova intervenção, uma “revisão”, já que os ligamentos não ficaram firmes o suficiente. “Para não tirar mais um tendão, usamos o banco de tecidos e no caso dele, dois tendões”, explica o ortopedista Rafael Borghi Mortati. A cirurgia, feita com uma equipe de profissionais, levou 40 minutos. Trinta dias depois da intervenção, o militar caminha tranquilo, dobra o joelho com flexibilidade e já pensa em jogar bola de novo. Uma recuperação de dar inveja, sim senhor.
Tudo isso só foi possível por conta de um trabalho de bastidores. A equipe de ortopedia do Hospital São Camilo trouxe consigo o credenciamento com profissional autorizado para fazer o transplante. Em União, há dois anos, vinha trabalhando para credenciar o hospital onde atua, para que, aí sim, as intervenções pudessem acontecer na cidade. Deu certo.
Há dois meses o São Camilo é credenciado ao Banco de Tecidos Músculoesqueléticos pelo Sistema Nacional de transplante (SNT). Hoje o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO) é a entidade responsável pela captação, processamento e distribuição de osso, tendões e meniscos para utilização em cirurgias de transplantes na área da ortopedia e odontologia. O INTO tem equipes preparadas para realizar captações 24 horas por dia, o ano todo.
Como funciona
Os pacientes da região que recebem recomendação médica para o transplante podem aguardar em casa a chegada do material. Em alguns casos, contudo, a urgência acelera tudo isso. De modo geral, o INTO pede apenas 15 dias de antecedência, para organizar os ossos e tecidos antes de enviá-los.

As peças vêm do Rio de Janeiro, de avião. No aeroporto de Curitiba, são retiradas por um profissional do São Camilo, autorizado e identificado. “O transporte é feito por companhias áreas sem custo nenhum para o paciente”, lembra Mortati.
Os ossos chegam à cidade congelados (foram processados em – 80ºC). O risco de infecção e contaminação é praticamente nulo, devido a maneira como esses tecidos são processados. “Esse material chega estéril”, explica o ortopedista. Por isso, após a cirurgia, praticamente não há risco de rejeição. Independente do sexo, altura, cor, osso é osso e, portanto, se adapta de qualquer um para qualquer pessoa. Bastam ajustes.
Foi o que a equipe de ortopedia do Hospital São Camilo fez, por exemplo, em uma recente revisão de quadril. Ele usou um pedacinho de joelho para alcançar o efeito. “Usamos o osso onde falta osso. Não necessariamente precisa ser um fêmur para um fêmur”, diz.
Gratuito
Se a notícia de que o transplante acontece em União é boa, ela fica ainda melhor quando se falam em cifras. É que o material usado não tem custo para o paciente. “Independente do Plano de Saúde, todo paciente tem direito e isso não pode ser cobrado. Pode ser cobrado a prótese, o procedimento e a parte hospitalar, a parte do enxerto não”, deixa claro o ortopedista.
Setembro Verde
A novidade para União da Vitória não é tão estreante no País. No Brasil, o transplante de ossos acontece desde 1997, graças à sensibilidade dos doadores de órgãos. Por isso, a notícia de que a cidade está apta ao processo encerra com “chave de ouro” a campanha “Setembro Verde”, mobilização que estimula o aumento no número de doadores. No caso dos ossos, por exemplo, todos foram retirados de paciente que, em vida, tinha a vontade de ajudar ao próximo.