
Em um vídeo de 30 segundos que circula pelo WhatsApp, um morador do distrito de São Cristóvão, Três Barras, leva golpes nas mãos desferidos por dois homens, um com uma ripa e o outro com um pedaço de pau.
A cada golpe violento nas mãos do rapaz, os autores da violência o ameaçam de morte caso ele volte a furtar. O rapaz, que aceita bovinamente os golpes, é conhecido no distrito por pequenos furtos.

A punição dele, amplamente divulgada no distrito, seria um recado da facção criminosa que vem atuando nos últimos anos no tráfico de drogas na região. Por regras internas, eles não admitem roubos e furtos. Membros que descumprem ou vierem a descumprir a regra, recebem o mesmo tratamento dispensado ao rapaz que protagoniza o vídeo.
Segundo moradores do distrito ouvidos pelo Portal JMais, o rapaz teve os dedos das duas mãos quebrados. Ao final do vídeo, a voz de um homem que não aparece na gravação diz que “se chegar mais uma queixa de que você roubou na quebrada, não vai ser só paulada nos dedos, nós vai te matar”. “Isso é pra todo mundo vê que você roubou na quebrada”, diz o outro agressor. O estampido supostamente de um tiro disparado aparentemente ao chão é ouvido ao final da filmagem.

O vídeo é um indício de que um poder paralelo atua no distrito tresbarrense. Em agosto do ano passado, a então juíza criminal Dominique Gurtinski Borba Fernandes, disse publicamente, em evento de entrega de doações do Tribunal de Justiça do Estado à corporação da Polícia Militar de Canoinhas que “hoje nós já temos facção instalada na nossa comarca. Prefeito de Três Barras deve saber… São Cristóvão é dominado hoje, muito, pelo PGC, o Primeiro Grupo Catarinense”.
A juíza se referia a uma facção fundada por um canoinhense, Nelson de Lima, o Setenta. O PGC ganhou projeção estadual, ao rivalizar com o Primeiro Comando da Capital (PCC) pelo comando do crime na região de Joinville. A maior cidade catarinense é apontada como a sede do grupo. Setenta, hoje, está preso em uma penitenciária de segurança máxima no Mato Grosso do Sul e se diz desvinculado do PGC.
A expansão do grupo pelo Estado teria no São Cristóvão uma posição estratégica visando dominar o tráfico de drogas na região. Focar nas drogas e rechaçar crimes como furtos e roubos seria uma característica do grupo. A punição severa a quem contraria as regras é outra característica marcante do PGC.
Presença
Mais que o vídeo, a presença do PGC na região voltou a chamar a atenção com a descoberta da trama que envolveu a morte de Leonardo Klauberg, 19 anos, revelada pela Polícia Civil de Canoinhas no fim de outubro.

Com dívida junto ao tráfico, Leonardo foi atraído por um amigo de infância sob o pretexto de usar drogas em uma área erma próxima a BR-280, no bairro Boa Vista, onde foi espancado e morto asfixiado. Depois, foi enterrado.
Segundo o delegado responsável pela Divisão de Investigação Criminal (DIC) de Canoinhas, Marlon Bosse, “aparentemente o Leonardo tinha uma dívida de drogas e, por não pagar a dívida, infelizmente o sistema do tráfico é assim, não paga dá-se o prazo e se não cumprir o prazo é assassinado, foi exatamente o que aconteceu no caso do Leonardo”.
Ele confirmou que o “amigo” integra o PGC e com a ajuda de um comparsa teria matado Leonardo a princípio a mando da facção.
Desde janeiro de 2018, conforme levantamento feito pelo JMais, quatro mortes violentas com semelhanças no modo de agir dos assassinos foram registradas em Canoinhas e Três Barras. O ato de matar e enterrar em covas rasas é a característica mais comum.
Os quatro casos foram solucionados pela Polícia Civil, mas paira sobre eles a mão da organização que segue ativa, apesar de mais de 60 integrantes do PGC na região estarem presos, detidos durante as operações Reprobus e Dízimo.
Vítimas
Em janeiro do ano passado, logo na virada de ano, Antonio Carlos dos Santos, 36 anos, desapareceu no caminho entre sua casa e a de sua companheira. Seu corpo foi encontrado enterrado em uma cova rasa às margens da BR-280 quatro dias depois.

Segundo o delegado regional Rui Orestes Kuchnir contou à época, todo o processo para se chegar ao corpo da vítima começou com duas investigações que aparentemente não teriam ligação – a suspeita de latrocínio no caso de Antonio e um roubo ocorrido no dia seguinte no bairro Piedade, em Canoinhas.
No caso do roubo, ladrões armados invadiram a casa, renderam a dona da residência e levaram joias e outros objetos de valor, incluindo um notebook. Esse computador foi visto por policiais dentro de um veículo suspeito que estava destrancado estacionado nas proximidades de uma casa onde suspeitos de envolvimento no desaparecimento de Antonio costumavam frequentar.
A partir de então, a DIC passou a monitorar o veículo. Quando eles se deslocaram foram abordados pela Polícia. Entre os suspeitos – quatro homens e duas mulheres – estava a adolescente de 15 anos que tinha um relacionamento amoroso com Antonio. Ainda no carro estava um ex-funcionário da vítima do roubo do bairro Piedade, o que confirmou a ligação entre os crimes. “Acreditamos que eles mataram o Antonio porque ele não disse onde estaria uma quantia em dinheiro que eles afirmavam que ele tinha. No segundo caso, do roubo, eles conseguiram o que procuravam”, explicou Kuchnir à época. Não houve nenhuma comprovação da participação do PGC no crime, apesar do modus operandi dos assassinos ser o mesmo.
Em julho do ano passado, o corpo de Tiago Rodrigues de Souza, 20 anos, foi encontrado com vários sinais de agressão na rua Ana Correia e Silva, no distrito do São Cristóvão. Tiago foi ferido com arma de fogo na região dorsal do lado direito. Havia outro ferimento que aparentemente seria de arma de fogo.
As investigações resultaram em um relatório de mais de 50 páginas que apontou a culpa de membros do PGC. Poucos dias antes, um casal foi baleado dentro de casa na rua Wenceslau Krupacz, também distrito do São Cristóvão. A mulher foi atingida no braço direito por um disparo e o homem atingido com três tiros, um na mandíbula, um no braço esquerdo e um na perna direita.
Os dois sobreviveram e foram embora de Três Barras afirmando à Polícia que não tinham ideia de quem teria cometido as tentativas de homicídio.

Em setembro do ano passado, mais de 70 policiais civis e militares de Canoinhas participaram de uma operação intitulada Disciplina. O foco da operação foi o combate ao PGC. Treze pessoas foram detidas, entre elas oito homens, três mulheres e dois adolescentes acusados de envolvimento no assassinato de Tiago e na tentativa de homicídio contra o casal.
No mês seguinte, Rafael Murilo Souza Ortiz, 15 anos, desapareceu no Campo d’Água Verde, em Canoinhas. Rafael saiu de casa em 12 de outubro para visitar um amigo que mora na esquina de sua rua e desde então sumiu. O amigo contou que ele chegou a sua casa, ficou um tempo, mas saiu prometendo voltar logo. Desde então, desapareceu.

Rafael tinha problemas com drogas, que compraria do suspeito preso em junho deste ano, Everaldo Moreira. Ele nega qualquer envolvimento com o desaparecimento de Rafael, mas testemunhas relataram no decorrer do inquérito que ouviram Everaldo se gabar de ter matado o menino. Ele teria contado como consumiu com o corpo de Rafael, que ele teria estrangulado.
Em seguida, ele teria esquartejado o menino, queimado parte do corpo e outra parte jogado no rio Canoinhas. A Polícia fez buscas, mas não encontrou nenhum vestígio do corpo, o que torna o julgamento por meio de júri popular um dos mais instigantes da história recente da comarca. Everaldo vai a julgamento no próximo dia 13. O caso deve lembrar o da modelo Eliza Samudio, cujo corpo até hoje não foi encontrado. Mesmo assim, o ex-goleiro do Flamengo, Bruno, e um comparsa, foram condenados. Apesar de Everaldo sequer reconhecer o homicídio, acredita-se que ele possa estar envolvido com a facção.

Já em janeiro deste ano, Saulo Jonas, de 21 anos, foi executado com um tiro e pauladas na cabeça na na rua Firmino de Paula e Silva, no distrito do São Cristóvão. A investigação da Polícia Civil apontou que ele foi executado sob ordens do PGC por supostamente ter deletado companheiros da facção e por supostamente ter trocado o PGC pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), facção paulista que disputa o controle do tráfico na região de Joinville com o PGC.
Investigação
O delegado Marlon Bosse disse que a princípio não há digitais do PGC no assassinato de Rafael. “Tem envolvimento com drogas, mas não com a facção”, afirma.
Ele disse ainda sobre o vídeo onde um homem aparece tendo os dedos quebrados por supostos membros da facção, que a Polícia já tem o vídeo e está investigando o caso que configura crime de tortura.
Delegado regional, Rio Orestes Kuchnir, frisa que no combate ao PGC a Polícia Civil precisa do apoio do Poder Público, “ou seja, que os municípios invistam na Polícia Civil com a aquisição de equipamentos, viaturas, armas, valorização da polícia junto ao Governo do Estado, caso contrário se os municípios fizerem vistas grossas para a segurança pública, estaremos todos fadados ao insucesso e à mercê desse comando paralelo que está aí para todos verem, afrontando o Estado. A Polícia Civil está fazendo a sua parte e, diga-se de passagem, com maestria”.
POR DENTRO DO PGC
Como funciona a facção criminosa que aterroriza Santa Catarina
Irmão paga o dízimo. É lei. Todos os membros do PGC conhecem o estatuto da facção criminosa criada dentro da Penitenciária de São Pedro de Alcântara dia 3 de março de 2003 por Setenta.

Quem der calote cumpre a pena – ou melhor, não cumpre é executado. Essa norma faz com que o PGC arrecade por ano, aproximadamente, R$ 1,6 milhão.
São aproximadamente 1.400 afiliados no Estado. Cada um paga R$ 100 por mês para o dízimo. Com exceções: presos libertos têm três meses de carência. No quinto mês de atraso “o responsa é cobrado com rigor”.
O objetivo é investir no tráfico – a fonte de renda dos 20 ministros que lideram a facção. Para fortalecer o mercado valem outros crimes. Menos sexuais. Duques, como são chamados réus condenados por estupro não são aceitos no PGC.
Essa característica tem uma variação pelo menos em Três Barras onde, como sugere o vídeo citado na reportagem, a facção não tem mais tolerado furtos. Quer focar no tráfico.
O dinheiro arrecadado com o crime é usado para pagar advogados, o transporte das visitas, a corrupção de agentes penitenciários e compra de armas e drogas para alimentar as bocas.
Nem todos os traficantes têm envolvimento com o PGC. Mas todos têm que contribuir. É a forma de garantir proteção e privilégios na cadeia.
Entre os objetivos do PGC, o principal é organizar e expandir o crime na rua. No ano de criação da facção, os maiores traficantes de Florianópolis estavam presos. Nessa época, a cidade acobertava a disputa silenciosa pelos pontos de vendas. A facção fortaleceu-se sorrateira dentro do cárcere.
O Estado a negou por nove anos, até a morte de Deise Fernanda Melo Pereira Alves, em 2012. A agente prisional foi executada na frente de casa, no bairro Roçado, em São José, no lugar do marido – o diretor linha-dura da Penitenciária de São Pedro de Alcântara Carlos Alves – que estava em Brasília.
Dez dias depois, o viúvo participou do espancamento dos detentos. O Departamento de Administração Prisional (Deap) explicou o episódio que lesionou 69 prisioneiros como contenção de um princípio de motim.
No mês seguinte, vídeos mostraram ministros do PGC ordenando atentados por represália à violência dentro da Penitenciária. Ônibus queimados, bases da polícia metralhadas, mortes: o chamado “salve geral”, antes restrito a bilhetinhos interceptados pelo Deap tornou-se público através da mídia. Cenas que se repetiram no ano seguinte e foram pacificadas depois de muitos embates entre autoridades e líderes da facção.
Hoje o PGC parece mais contido e focado, o que também sugere o vídeo de tortura no São Cristóvão, onde eles determinaram um toque de recolher. “Eles não querem muita aglomeração de pessoas nas ruas, para facilitar a venda de drogas”, conta um morador do distrito. “Se a pessoa for para a igreja e se converter, não vai ser penalizado pelo grupo. Tem pessoas que são forçadas a ir para a igreja. Ou vai para a igreja ou vai morrer”, conta outro morador sob a condição de anonimato.