A realidade de ser mulher no Brasil apresentada em números e imagens. Para uma plateia de aproximadamente 200 pessoas, na noite de terça-feira, 19, União da Vitória recebeu o evento “Queremos todas vivas. O feminicídio sob o olhar de uma médica legista”. Realizado pela Procuradoria da Mulher de Curitiba e com o apoio de entidades locais, da CBN Vale do Iguaçu e do Jornal O Comércio, a programação incluiu a palestra ministrada pela médica do Instituto Médico Legal (IML) e Procuradora da Mulher de Curitiba, Dra. Maria Leticia Fagundes.
Com 25 anos sendo médica-legista no Paraná, Maria Leticia atendeu inúmeras vítimas de violência doméstica e feminicídio durante sua atuação no IML. O objetivo do evento foi o de ampliar o debate sobre feminicídio.

O feminicídio em números
Quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil, vítimas de feminicídio. É o que diz o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que reflete uma epidemia de homicídios contra as mulheres em um dos países mais violentos para se nascer uma.
Segundo Maria Leticia, o número pode ser assustador, mas a realidade é provavelmente ainda mais cruel quando se é considerada a subnotificação que impede o registro de todos os crimes que acontecem no país. O resultado é um cenário preocupante e de difícil resolução.
Dados fornecidos também do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que 66% das vítimas de feminicídio são negras. Também, a porcentagem de mortes de mulheres LGBTQIA+ cresceram em 25%. Os casos de estupros entre 2019 e 2020 também aumentaram, chegando a 21%. Os números são ainda mais chocantes quando se trata de crianças. Cerca de 80% dos casos são praticados contra elas, e em maioria por pessoas conhecidas. “A mulher não veio para enfeitar os homens; veio para ter os mesmos direitos”, acrescenta Maria Leticia.

Programação
A programação da noite incluiu também a apresentação do Projeto Confiar. Idealizado pela psicóloga Daniele Jasniewski, o projeto trata-se de ações que visam realizar uma escuta psicológica humanizada para crianças e adolescentes possíveis vítimas de abuso sexual, garantindo a integridade psicológica das possíveis vítimas.
Segundo Daniele, o objetivo central é proporcionar condição de escuta humanizada para crianças e adolescentes possíveis vítimas de violência sexual. Além disso, a equipe do projeto atua na intenção de minimizar a revitimização da suposta vítima, evitando que a mesma seja submetida a prestar depoimentos intermitentes e repetitivos perante diversas instituições, proporcionar ambiente acolhedor de escuta para as crianças e adolescentes supostamente vítimas de violência sexual, proteger a integridade física, psíquica e emocional da suposta vítima, considerada a sua condição de pessoa em desenvolvimento, entre outros.
Quem fez também o uso da palavra foi a psicóloga Marly Perrelli. Com atuação em São Mateus do Sul (PR), ela possui doutorado em Psicologia e atua em situações extremas, como crises, emergências e desastres. Ela já atuou em apoio psicossocial no Haiti, África, no acidente da Chapecoense e Brumadinho. No município vizinho, ela atende homens que praticaram o feminicídio.

“Queremos todas Vivas”
O Projeto Queremos Todas Vidas nasceu em julho de 2021, no Dia Estadual de Combate ao Feminicídio. Na ocasião, a Procuradoria da Mulher da Câmara de Curitiba criou uma intervenção urbana para colocar na rua o debate sobre o feminicídio, ampliando o entendimento sobre esse problema de segurança pública que tanto assola as mulheres. Quatro silhuetas gigantes de mulheres foram dispostas no meio do calçadão da Rua XV de Novembro, representando as 4 vítimas diárias do feminicídio.
Além da intervenção, um site com informações sobre esse crime foi criado, bem como uma carta de intenções que orienta o desenvolvimento de políticas públicas capazes de frear a consequência mais cruel do machismo. O sucesso do evento também inspirou sua realização em outras cidades.





