COMPORTAMENTO: Tecnologia usada para o mal

Divulgação de vídeos e imagens de vítimas pelas redes sociais pode causar estragos gigantes em quem assiste. Comunicação ágil nem sempre é usada da maneira correta

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Atualizado há 11 anos

A dor de perder alguém em um acidente de trânsito, em uma briga, enfim, em uma fatalidade, já é insuportável. Só quem já viveu a situação para entender o sentimento. Mas, muito mais cruel, é a exploração da imagem das vítimas replicadas nas redes sociais, para o mundo todo ver. Parece moda, mas, com tanta tecnologia a favor, a divulgação deste tipo de conteúdo é cada vez mais comum. E assustadora. Não há filtros, sobram imagens reais, desastrosas e violentas. O problema é que muito mais que saciar a curiosidade de quem tem um estilo, digamos, “abutre”, é ver os vídeos e fotos nas contas e grupos de familiares da vítima. O horror choca.

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Daniele Janiewski

“A dor e todos os sentimentos resultantes do processo de luto serão drasticamente amplificados, ou seja, a pessoa enlutada além de precisar lidar com as questões normais do luto será obrigada a experimentar sentimentos negativos gerados por conta da exposição desrespeitosa das imagens do ente querido falecido”, aponta a psicóloga Daniele Janiewski. Estes são apenas alguns dos efeitos, já que quem perdeu um familiar, além de viver apenas de lembranças, vai ter na mente também as imagens dos últimos momentos, sejam vivos ou mortos. “Perder alguém que amamos é naturalmente doloroso, mas, perder alguém e saber que a dor está sendo tratada como um evento, fotografado, filmado e compartilhado através de redes sociais, dificulta ainda mais a elaboração e a recuperação após a perda”, observa Daniele.

Vilã?

Para o diretor executivo da Girafa Comunicação Interativa e palestrante sobre comunicação digital, Marcos Romualdo dos Santos, a relação é simples. “Pegamos como exemplo uma faca, que é um indispensável utensílio de cozinha. O ser humano acaba a usando para o lado mal. No meu ponto de vista a tecnologia não é a culpada por isso, e sim as pessoas que à usam e a forma que usam”, diz, ao analisar a influência da tecnologia sobre os eventos do cotidiano.

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Marcos Romualdo

Não há como escapar: milhões de pessoas estão conectadas no mundo. Apenas no Brasil, conforme Nielson/Ibope, apenas neste primeiro semestre, já há mais de 68 milhões de smartphones conectados. Por isso, um clique aqui, outro ali, garantem o compartilhamento de conteúdo adequado, bem como do que é impróprio e até ilegal. “Sempre falo que as coisas mudaram de uma maneira que hoje, por exemplo, se tiver um grupo de turistas em volta de um lago e uma das pessoas escorregar e cair, ao invés de alguém se prontificar a pular no lago pra salvar, acabam vendo quem filma o tombo primeiro e posta na internet”, diz.

Para Santos, portanto, o compartilhamento de material de cunho violento ou apelativo é sinonimo de irresponsabilidade. É como se o dono do material cortasse os proprios punhos. Ou o do vizinho.

Rastro

A publicação de conteúdo impróprio deixa rastros. Identificar o autor do primeiro compartilhamento talvez não seja tão simples, mas, possível. “A partir de uma série de informações contidas nos conteúdos propriamente ditos, e em metadados – informações a respeito do arquivo – de acordo com o que é registrado em cada serviço”, garante o professor da MBA em Comunicação do Centro Universitário da Cidade de União da Vitória (Uniuv), Luciano de Sampaio. Segundo ele, já que não é possível impedir o compartilhamento, ferramentas podem garantir o bloqueio deste tipo de conteúdo. Ou seja, se você não quer ver, não vai ver.

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Luciano de Sampaio

Contudo, o processo não é tão simples. “O Facebook, por exemplo, tem ferramentas que permitem ao usuário impedir que certos agentes – páginas, outros usuários – sejam exibidos na linha do tempo de um indivíduo, porém filtros de conteúdo, que impeçam a exibição independente de quem publicou, ainda não estão disponíveis. Quando se fala em celulares e smartphones, a coisa é ainda mais complicada já que, via de regra, os contatos que enviam essas mensagens foram adicionados voluntariamente, dificultando ainda mais a exclusão de conteúdo específico, independente de fonte”, explica. Nesse caso, a possibilidade viável – mas que acaba excluindo também conteúdos de interesse – é impedir o recebimento de qualquer arquivo.

Vale lembrar que este tipo de publicação é crime. De acordo com o Juiz de Direito de União da Vitória, Carlos Eduardo Mattioli Kockanny, essas situações afrontam os princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana, da vida privada, da intimidade e da imagem. Ainda, em alguns casos, podem ferir o direito à honra. “É possível, em situações como a do cantor sertanejo Cristiano Araújo, por exemplo, que se responda pelo crime de vilipêndio ao cadáver, previsto no Código Penal”, exemplifica.

Em toda e qualquer situação de violação à imagem, cabe ação de reparação de danos na esfera cível, com pagamento de indenização em dinheiro pelos responsáveis. No caso de pessoas que morreram, a indenização pode ser postulada pelos pais ou demais herdeiros.

O sabor da curiosidade

Conforme Daniele, dentro das contribuições da psicologia e mais especificamente nos estudos da psicanálise, existem vários textos que explicam o comportamento de quem compartilha, ou se sacia vendo este tipo de conteúdo. “O que ocorre é que o ser humano possui em maior ou menor grau um sentimento de elação, a necessidade de sentir-se bem em perceber que algo de ruim ocorreu com outro ser humano e não com ele”, explica.

O assunto “morte”, por mais que represente tabu, sempre foi, é e sempre será um tema que atrai a atenção de todo ser humano. Embora ele negue, a morte é assunto que interessa a todos. “Para provar esse comportamento, basta entrar em qualquer portal de notícias da internet, quais são as cinco primeiras notícias mais acessadas? Sem dúvida nenhuma, serão notícias relacionadas a morte trágica de alguém”, exemplifica a profissional.

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