
Com o aumento dos números de casos e gravidade da situação dos hospitais, os governos do Paraná e de Santa Catarina adotaram medidas mais duras para tentar conter o avanço da Covid-19 nos estados. O governador catarinense, Carlos Moisés, publicou na quinta-feira, 25, um decreto estabelecendo o fechamento de atividades não essenciais durante os dias 27 e 28 de fevereiro e 06 e 07 de março. Enquanto isso, o governador paranaense, Carlos Massa Ratinho Junior, decretou na sexta-feira, 26, regras ainda mais restritivas, proibindo o funcionamento de uma série de atividades e estabelecendo toque de recolher a partir das 20h em todo o estado, em um período que começou no sábado, 27, e segue até às 5h de segunda-feira, 08.
No Vale do Iguaçu as medidas foram acatadas, respeitando os decretos dos respectivos estados. Na manhã de sábado pôde-se perceber que alguns estabelecimentos não respeitaram a ordem suspensão de funcionamento, outros permaneceram com as portas fechadas, porém realizando o atendimento. Um terceiro grupo acatou as ordens impostas nos decretos. Neste mesmo dia, equipes de fiscalização de Porto União checaram mais de 20 estabelecimentos, entre eles bares, restaurantes, vendedores ambulantes e revendas de veículos.
Ainda no sábado, duas festas clandestinas em União da Vitória foram fechadas pela Polícia Militar. Uma delas contava com a participação de 20 pessoas, a outra, 26.

As diferenças dos decretos aplicados no Paraná e em Santa Catarina começaram a ser observadas na manhã de segunda-feira, 1º, no Vale Do Iguaçu. Enquanto União da Vitória adota medidas que proíbem o funcionamento de grande parte dos estabelecimentos comerciais durante a semana, o mesmo não acontece em Porto União.
Segundo a imunologista e PhD em doenças infecciosas, Lúcia Abel Awad, o Supremo Tribunal Federal (STF), deu autonomia aos estados e municípios para adotarem medidas restritivas de acordo com a necessidade da região.
“Essas regras devem ser impostas rapidamente para que a gente não tenha um número maior de casos em determinadas regiões. Isso deve ser determinado de acordo com a localidade”, esclarece.
O Secretário de Saúde de União da Vitória, Fernando Ferencz, aponta que a diferença entre os decretos adotados pode ser um empecilho para o bom funcionamento das medidas.
“É difícil acreditar que há funcionamento com decretos diferenciados, mas não podemos impor nada. A gente deixa em cargo deles (governo de Porto União) essas decisões municipais, se elas vão seguir o que está do decreto estadual ou não. É muito complicada essa situação. De repente a gente coloca a culpa em um gestor e ele está apenas seguindo um decreto estadual”, comenta.
Fernando, contudo, acredita que há a vontade do Prefeito de Porto União, Eliseu Mibach, em alinhar as medidas adotadas pelas duas cidades.
As diferenças de visões estratégicas estaduais são a razão da falta de coesão entre os dois decretos, de acordo com o Secretário de Saúde de Porto União, Marivaldo dos Reis, que afirma que a posição da prefeitura é ter atitudes que sejam compatíveis com as adotadas no munícipio paranaense.
“Mas quando é macroestratégia aí temos que obedecer ao governo do estado”, ressalta.
Vale destacar que, segundo o artigo 4º do decreto catarinense, os municípios podem estabelecer medidas específicas mais restritivas do que as previstas pelo estado.
Comerciantes contra o lockdown

Os comerciantes do Vale do Iguaçu demonstraram insatisfação com as medidas impostas pelos governantes, que afetam, sobretudo, essa classe. Por meio das redes sociais organizou-se uma carreata contra as restrições vigentes. A manifestação aconteceu na tarde de domingo, 28.
Uma empresária ouvida pela reportagem acredita que os comerciantes estão cumprindo com todas as normas de segurança, e que o verdadeiro problema são as festas e aglomerações clandestinas.
“Se nós fechamos, prejudicamos várias outras pessoas. Atrasamos os pagamentos de funcionários e boletos”, aponta a empresária, que também diz que o setor ainda está tentando se recuperar.
Lúcia relata, contudo, que a principal razão e importância do fechamento do comércio não essencial é evitar aglomerações.
“Não adianta a gente deixar o comércio aberto porque realmente o número de casos vai aumentar, a gente não vai ter o controle da pandemia”.
Lúcia, porém, comenta que caso se opte por não fechar o comércio, medidas de segurança devem ser adotadas, incluindo a restrição de horário de funcionamento e diminuição do número de pessoas atendidas.
“As pessoas precisam colaborar, fazer o uso de máscara e só sair nesse momento tão crítico se realmente tiver necessidade”, completa.
A imunologista indica, ainda, que países que estão enfrentando melhor a doença são aqueles que adotam medidas restritivas mais duras. Lúcia acredita que seguir a vida normalmente para tentar atingir uma imunidade de rebanho será uma catástrofe, e que, se as ações com relação à pandemia seguirem por este caminho, o número de mortos só tente a aumentar.
Tanto Fernando quanto Marivaldo acreditam que a fiscalização tem sido eficiente no Vale do Iguaçu.
“Mas é muita gente para ser fiscalizada e estamos sendo direcionados pelas denúncias dos próprios comerciantes”, explica Marivaldo.
Pouca vacinação e testagem

Testagem apenas com o aparecimento de sintomas. Esse é o cenário enfrentado pelo país inteiro. Fernando acredita que o ideal seria a testagem em massa, mas que não existe estrutura física e financeira para tanto.
Lúcia destaca que o número de pessoas testadas tem caído com relação a dias atrás, e que é de extrema importância realizar o teste assim que surgirem os sintomas, mesmo que leves. Quanto a vacinação, a imunologista acredita que o Brasil demorou demais para fazer os acordos de compra de vacina, e que os reflexos estão sendo sentidos hoje.
“Temos locais do país que não tem mais vacinas, como o Rio de Janeiro. Isso é uma situação muito grave”, explica.
Para Lúcia, países que se adiantaram na compra das vacinas estão se saindo melhor no combate à pandemia. Segundo ela, Israel, que vacinou cerca de 80% de sua população, registrou uma queda de 50% das mortes e casos graves, mostrando, assim, os benefícios da vacinação.
“As pessoas aqui no Brasil já poderiam estar sendo vacinadas há mais tempo e hoje a situação seria totalmente diferente”, completa.
Porto União e União da Vitória estão na fase de vacinação de idosos com idade entre 80 e 89 anos e 11 meses. O problema, segundo Fernando, é que não há como saber quantas doses ainda serão entregues na região, pois a distribuição é feita de acordo com as doses disponíveis no estado. O secretário relata, ainda, que o governo não está conseguindo cumprir a meta de entrega das vacinas que foram contratadas.
Detentos contaminados

A informação de que 67 detentos da Unidade Prisional Avançada (UPA) de Porto União estavam contaminados pelo Covid-19 chegou no domingo, 28. Além deles, um funcionário também testou positivo. A unidade abriga 135 detentos, com idades entre 18 e 40 anos.
Com a confirmação veio a dúvida: detentos tem prioridade no atendimento médico? Segundo a doutoranda em filosofia política e vice-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de União da Vitória, Jilia Diane Martins, o atendimento de detentos deve ser feito, preferencialmente, dentro do estabelecimento penal. Caso não seja possível, o detendo terá preferencia no atendimento devido à logística necessária para garantir que o mesmo receba assistência médica.
“O atendimento prioritário no sistema de saúde se dá por conta do detendo necessitar de uma escolta. Envolve também a segurança que os agentes penitenciários precisam garantir para todos que estão aguardando atendimento. Não é possível chegar com um agente prisional, com um preso algemado e deixá-lo numa fila esperando por horas.”
Mas a preferência no atendimento hospitalar acaba aí. Caso o detento necessite de internação, só terá preferência caso seja idoso ou esteja em uma situação mais crítica do que a apresentada pelos demais pacientes na fila.
Como estão nossos hospitais?
A preocupação com a possível falta de leitos não é exagero. Os três hospitais do Vale do Iguaçu estão atuando com lotação máxima dos leitos específicos para Covid-19. Segundo dados de ontem, 1º, a Associação de Proteção a Maternidade e a Infância (APMI) está com seus quatro leitos de UTI e cinco de enfermaria ocupados, e não há previsão de abertura de vagas; no Hospital Regional são quatro os leitos de UTI ocupados e oito os de enfermaria, atingindo, assim, os 100% de capacidade. Há, ainda, três pacientes aguardando vaga em uma UTI; no Hospital São Braz o número de internados com COVID-19 chegou a 12, sendo sete na UTI e cinco na enfermaria.
Segundo Fernando, a situação na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de União da Vitória também é delicada. O secretário de saúde do município relatou que foi preciso aumentar o número de pessoas e o espaço físico para realizar o atendimento, devido a alta procura.
“Ainda estamos tentando segurar a situação de não haver um colapso na saúde com relação aos leitos. O número de pacientes infectados e suspeitos aumentou demais. Isso tudo em decorrência da falta de restrição, do pessoal não usar máscara, álcool em gel, de estar aglomerado e fazer festas clandestinas, viagens, esse tipo de situação é o que deixa esse parâmetro do Covid-19 do jeito que está. Uma situação caótica”, alerta.
Marivaldo também vê na falta de cuidado da população uma das grandes razões pela piora nos índices de contaminação por Covid-19 nos municípios. Segundo ele, as festas de fim de ano e possibilidade de vacinação em massa criaram um otimismo na população, que relaxou os cuidados.
“Não veio a vacina, veio o verão, as pessoas fizeram aglomerações, e nós vamos levar mais ou menos um mês e meio para retificar essa curva de contágio. Isso se a população colaborar”. Marivaldo relata, ainda, que a cada 100 novos infectados, uma a duas pessoas vão a óbito. “Essa é a aritmética perversa do contágio da Covid-19”.
O que resta neste momento é o apelo de Marivaldo para que a população colabore, evitando festas e encontros clandestinos.
“Como é que a gente vai controlar (a pandemia) se as pessoas não estão querendo se proteger?”.
O Secretário da Saúde indica que se a população não colaborar, a situação só tende a piorar. “Paramos com as cirurgias eletivas para atender a questão da Covid-19, mas daqui a pouco não vai ter vaga se as pessoas continuarem agindo negligentemente e atuando como se nada estivesse acontecendo.”

Por que ainda vejo estabelecimentos abertos?
Apesar da restrição imposta pelo governo do Paraná, algumas lojas e serviços não essenciais estavam funcionando normalmente no dia de ontem, 1º. A explicação é o tipo de alvará cedido ao estabelecimento. Se no alvará constar que o local comercializa algo considerado essencial, como comida, por exemplo, o estabelecimento pode permanecer aberto.